|
Os preconceitos de ontem
por Vladimir Souza
Carvalho
Joãozinho Retratista, como fotógrafo, enclausurado em
Itabaiana, na década de quarenta, fazia coisas que o cão
duvidava em termos de fotografia. Uma delas, foi
personagem principal a jovem, das melhores famílias
locais, que aparecendo no seu atelier, para tirar uma
foto 3x4, terminou figurando em uma montagem, na qual
aparecia de calça comprida e de bota, segurando as
rédeas de um cavalo. A façanha da montagem, na qual
Joãozinho Retratista aproveitava a fotografia de uma
artista de cinema, repousava na falta de recursos
técnicos da época e no fato de o fotógrafo trabalhar
ainda com negativos de vidro, conseguindo, ainda assim,
alcançar o grau da perfeição.
Mas, em
casa, quando a jovem mostrou a foto aos pais, o
desfecho foi trágico: apanhou. Não era recomendável uma
moça de família vestir uma calça comprida, e, ainda
mais, aparecer em uma fotografia com o traje condenado.
Os pais da jovem não concebiam que, da foto, só era da
filha a cabeça, porque o resto do corpo, como a blusa,
calça comprida e etc., pertencia a uma artista
americana. O pau comeu. A foto foi rasgada e a moça caiu
na reprimenda da pancada. Mas, Joãozinho Retratista não
se abalou. A foto permaneceu a vida inteira em exposição
no seu atelier, ao lado de outras, pendurada na parede,
ou em porta-retrato de vidro. O atelier era dele e a
produção artística também. Os pais da jovem que fossem
se danar na casa do atraso e do inferno, deve ter
pensado. Ora bolas.
O
atraso, é bom ressaltar, não era obra exclusiva dos pais
da jovem, um dos quais, a mãe, prima de minha avó
paterna. O atraso era fruto da época, atraso que
exornava o mundo interiorano, no qual Itabaiana se
situava. Joãozinho Retratista entrou com a idéia e a
façanha da montagem. A jovem, com o rosto na foto e a
surra tomada. A fotografia ficou, eu vi, todos viram,
Joãozinho Retratista contando para todo mundo, por três
décadas adiante, a história da foto e suas
conseqüências. A gente se espantava, sem se lembrar que
a foto foi produzida na década de quarenta, estando a
ouvir o relato do fato na de setenta, ou seja, trinta
anos depois.
Itabaiana era um reduto fechado, que não abria as portas
para nenhum sintoma de civilização, como, aliás, deveria
ser todo o interior sergipano, e, um pouco menos, a
capital. Uma professora do Grupo Escolar Guilhermino
Bezerra, vinda de Aracaju, no meio da década de trinta,
foi beijada pelo namorado no oitão da Igreja Matriz.
Talvez até um leve ósculo no rosto. A cena foi vista. A
cumeeira moral balançou. A diretora da escola, uma
solteirona juramentada, vaticinou: esse negócio de moça
de Aracaju ensinando em Itabaiana não dava certo. A
mesma reação, ou quase idêntica, a do padre Benvindo
Tito de Jesus, quase cem anos antes, quando Itabaiana
ainda era vila, ocasião em que sua sobrinha, num passeio
pelos arredores do centro urbano, foi beijada por Tobias
Barreto. Deus do céu! O professor de Latim da pequena
mocidade itabaianense foi chamado de mulato pela ousadia
do beijo.
Mas,
não era só em Itabaiana. Aqui, em Aracaju, um
itabaianense, meu amigo, de quem ouvi o relato, já
noivo, no final da década de sessenta do século passado,
precisava ir três vezes ao dia se apresentar ao futuro
sogro, ou seja, pela manhã, pela tarde e pela noite, a
fim de deixar o velho tranqüilo, porque a noiva tinha
viajado a Itabaiana para passar uns dias na casa dos
futuros sogros. No caso, é bom recordar que a estrada,
que ligava Aracaju a Itabaiana, não era ainda asfaltada,
levando um carro, por mais rápido que fosse, no mínimo,
um pouco mais de uma hora e meia no percurso da piçarra
e da poeira. Mas, o velho queria resguardar a moral da
filha e o meio que encontrava era aquele.
Dona
Yáyazinha de seu Vivi, uma alegre e simpática senhora,
sentada na calçada da casa, via a mulherada passar, se
rebelando contra aquelas que traziam as pernas
cabeludas. Não continha a sua ironia, que o filho mais
novo, Alberto, herdou. Ante aquele monte de cabelos,
esbravejava que, se ali, no caminho, era aquela mataria
toda, imagine na praça da feira, para onde os caminhos
convergiam, como não deveria estar. Mas, a mulherada não
raspava as pernas, porque era pecado, alguém deve ter
dito a centenas de anos atrás e a sentença ficou
transformada em norma que ninguém ousava revogar.
Baile
com luz negra foi um horror. A primeira vez que, na
Associação Atlética de Itabaiana, década de setenta,
mais precisamente, no seu início, num baile, apagaram as
luzes, para ficar só uma penumbra, um cidadão, cuja
filha dançava com o namorado, acendeu todas as lâmpadas,
à revelia da direção do clube. Quem quisesse dançar no
escuro que fechasse os olhos, proclamou no alto de sua
autoridade de pai, alegando que, nem no Rio de Janeiro,
se fazia baile assim, no escuro. Ninguém, da diretoria
do clube, ousou apagar, outra vez, as lâmpadas, pelo
menos, naquela noite.
Juiz de
Direito de Nossa Senhora da Glória, no final da década
de setenta, viajando de ônibus, ao passar por Feira
Nova, ouvi de uma senhora, ao meu lado, vendo as alunas
do ginásio com short, dentro da aula de educação física,
que uma mãe, de respeito, não deixaria nunca uma filha
sair de casa daquele jeito. Filha dela, de short, assim,
na rua, na presença de homens, nem pensar. Foi nessa
mesma época que um estabelecimento comercial em
Itabaiana resolveu colocar, na vitrina, um manequim, em
exposição permanente, e, ainda mais, portando um
biquine. O velhinho, lavrador aposentado, chapéu na
cabeça e chinelo gasto nos pés, morador da cidade,
parava, olhava e deitava falação. Aquilo era o final do
mundo, berrava e proclamava. Mas, não saia de perto, o
olhar de vira-lata faminto na apreciação das bonitas
formas do modelo, ainda que a boca, contrariando o
coração, entoasse canto de condenação.
Os
preconceitos foram, aos poucos, sendo derrubados. Há
sempre a infantaria, que sai na frente, Leila Diniz
pulando muro e impondo comportamentos novos, como, antes
dela, Chiquinha Gonzaga ditou moda. Da Corte para as
províncias, as revoluções sociais se fizeram de forma
lenta, mas, gradativamente, os sintomas chegando, aqui e
ali, acabando com toda a cautela e exagero do vestido
longo a esconder o corpo. A televisão deve ter
contribuído muito para a alteração de atitudes, com a
liberação de roupas, gestos, e atitudes.
Joãozinho Retratista, estivesse vivo e atuando ainda
como fotógrafo, ia gostar, mesmo sem ter idéia exata de
que a sua montagem foi um dado pioneiro de evolução na
década de quarenta do século passado. E se tivesse
paciência para aprender a navegar na internet, ia,
ainda, achar que a montagem feita, a que gerou uma surra
na jovem conterrânea, minha parenta não mui distante,
não se constituía, nem de longe, em um minúsculo e
imperceptível grão de areia no meio do deserto de Saara
das fotos que circulam nos quatro cantos do mundo. Não
só ia achar, como, cá pra nós, ia gostar também. E
muito.
|