Pais: nem tiranos nem vassalos
Por Telma Maria Santos
Vinícius de Moraes tem uma frase no
“Poema Enjoadinho” que mostra a perplexidade
existente em alguns momentos na longa, complexa e
bela estrada de educar filhos: “filhos, melhor não
tê-los, mas se não os temos, como sabê-los?”
Ao longo do poema ele relata, com a
graça que lhe era tão comum, as aflições pelas quais
os bons pais passam na caminhada junto aos filhos.
Como esquecer as febres, os tombos, os “galos” da
testa, os fastios que deixam as mães com os nervos à
flor da pele? Impossível olvidar as preocupações com
os primeiros passos, as primeiras letras, as
primeiras ações que requerem imediatas correções.
Mas Vinícius graciosamente também nos
lembra indefiníveis sentimentos. E então refletimos:
e a emoção de um abraço morno de pequenos ou de já
grandes braços? E o bem-estar interior que nos
invade ao ver um filho rir às gargalhadas? E a
felicidade de ouvi-los cantando debaixo do chuveiro?
E as primeiras palavras erradas? Impagáveis! (muito
embora precisemos delicadamente corrigir). Ainda
sorrio quando me lembro da minha filha, irritada por
me ver rindo de um acesso de mau humor dela, olhar
bem fundo nos meus olhos e me dizer seriamente, do
alto dos seus 5 anos de idade (na época), que não
achava “uma pinga de graça” no que eu estava fazendo
com ela. Ou quando, inconformada por ver um
motoqueiro sem capacete, disparou aos 6 anos: “bem
feito se cair, quem manda andar sem “caçapete”!
Neste último caso, além de corrigir o português,
precisei de uma longa conversa para tentar
convencê-la de que não se deve desejar mal a
ninguém, ainda que a pessoa esteja mergulhada em
equívocos. A correção para o erro do motoqueiro não
era uma queda, mas sim uma multa.
A história nos traz
interessantes episódios de diálogos entre pais e
filhos, registrando-se que o mais direto, completo e
perfeito diálogo de que se tem notícia foi o que se estabeleceu entre
Jesus e o Criador: através dele, passamos a ver Deus
não mais como o Deus dos exércitos, mas um Deus
soberanamente bom e soberanamente justo, que ama
igualmente todos os seus filhos, bons ou maus,
justos ou injustos, segundo o Cristo deixa bem claro
na seguinte passagem evangélica: “(...) orai pelos
que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos
do vosso pai que está nos Céus, porque ele (sic)
faz nascer o sol igualmente sobre maus e bons e cair
a chuva sobre justos e injustos.”
Adentrando no campo dos mortais
comuns, há vários episódios tristes e curiosos.
Entre os primeiros, o fato de o grande filósofo
iluminista Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) não ter
criado os filhos que teve com Thérese, enviando-os a
um orfanato. Dizem alguns historiadores que mais
tarde a culpa urdiu nos escaninhos da sua mente,
trazendo-lhe tormento pelo que fizera. Dizem,
inclusive, que escrevendo uma obra sobre educação
(De L’Éducation) que ajudava os pais nesta arte
delicada, Rousseau pretendeu se redimir da sua
atitude de abandono. Mas não faltou também quem
apontasse nisso uma ironia pelo fato de alguém que
abandonou os seus filhos pretender aconselhar.
Considerando que o ser humano não chega a este
planeta pronto e acabado e que há sempre
oportunidades de redenção e aprendizado (Paulo de
Tarso que o diga!), prefiro acreditar que ele
realmente desejou se redimir.
Mas sigamos nesta toada e voltemos os
olhos para a Roma antiga, especificamente um diálogo
entre Vespasiano, Imperador Romano (9 a 79 d.C), e
seu filho Tito (aquele mesmo que no ano 70 destruiu
Jerusalém), que até hoje causa inconformismo entre
os tributaristas que não aceitam a teoria da
abstração da licitude da atividade econômica na
exigência do tributo. Relatam os historiadores que
Tito questionou o pai pelo fato de ele ter
instituído imposto sobre mictórios de Roma, chegando
a sugerir-lhe que acabasse com tal tributo. Porém
Vespasiano, colocando uma moeda para que Tito
cheirasse, indagou se ela possuía cheiro (no caso,
se fedia), ao que ele obviamente respondeu que não,
completando o Imperador, em outras palavras, que o
dinheiro não carrega o odor da sua origem.
Aterrissando no presente, não podemos
deixar de constatar que as dificuldades na educação
dos rebentos têm se multiplicado: mundo globalizado,
com seus prós e contras (felizmente mais prós); rede
mundial de computadores, com todo tipo de estímulo,
em relação aos quais os pais precisam ficar cada vez
mais “espertos” (para usar o linguajar deles);
pandemia de valores equivocados: a ostentação, a
hipocrisia e a tibieza de caráter muitas vezes
silenciam e desviam as atenções do que se deve
procurar ser, do que é verdadeiro, da inteireza de
caráter, da perfeita diferenciação ente astúcia e
sabedoria, da necessidade de talhar uma consciência
lúcida e pura.
Muitas vezes os pais se perdem no
labirinto do dia-a-dia e não conseguem identificar
no seu filho as tendências que, se não inibidas,
serão o motor potente de uma infelicidade visível na
primeira curva. Se é certo que há indivíduos que por
mais que os pais se esforcem as más tendência
continuam imperando, não é menos verdadeiro que os
genitores terão pelo menos um sofrimento a menos: o
de não terem sido cúmplices ou omissos em relação
aos padecimentos vindouros.
O momento requer observação aguçada,
sabedoria, disposição e cautela elevada à enésima
potência. O meio-termo nunca esteve tão em
evidência! Como proteger sem comprometer o
desenvolvimento psicológico e social deles? Como
deixá-los livres quando estamos incertos quanto à
absorção e vivência das nossas propostas educativas?
A psicologia nunca se viu tão em evidência em
relação a esses conflitos. Mas convenhamos que a
solução ou a minimização de determinados problemas
requer a convergência de vários fatores. Faz parte
da era “multi” em que vivemos. O importante é que os
pais não olvidem as suas tarefas no seu contínuo
“dever de casa”.
Bem, a essa altura já se pode
esmiuçar o título do artigo, para esclarecer que o
“nem tirano nem vassalo” é uma despretensiosa
reflexão sobre a conduta de filhos (já com
discernimento) que desejam impor aos pais todos os
seus desejos e atitudes, e sobre
a dos pais
que, por medo ou comodismo, deixam-se arrastar por
esta corrente de descoloração dos seus compromissos
e valores. Nesta equação, os tormentos são
previsíveis e... voluntários.
Neste reconhecido oceano de dúvidas o
que soa mais acertado é buscar e aprender a
transitar nestes momentos desafiadores e complexos,
em que os pais sequer podem se valer de um Mandado
de Segurança ou de um habeas corpus para
enfrentar imposições de vontades cada vez mais
desarrazoadas e prejudiciais ao desenvolvimento de
uma consciência harmonizada com o coletivo, com o
idealismo construtivo, com a ética retificadora de
rumos e com a responsabilidade definidora de novos e
seguros rumos para uma melhor convivência consigo e
com as demais pessoas.
Redirecionar para os filhos aquilo
que eles nos impõem como tarefas nossas, sendo
deles, já é um bom exercício de identificação e
vivência das obrigações e deveres que talharão uma
personalidade amadurecida. Afinal, não podemos
amadurecer por eles e uma das nuances do
amadurecimento é a desenvoltura na vivência das
atitudes e atividades inerentes a cada um.
Nunca tive tanta segurança em
responder uma pergunta muito comum que se costuma
fazer aos pais: “O que você quer que seus filhos
sejam quando crescerem?”. É comum a resposta a esta
indagação se reportar ao lado profissional.
Evidentemente que a resposta mais curta e desejada,
embora às vezes não verbalizada, justamente porque é
óbvia, é “ser feliz”.
Ocorre que ser feliz
é conseqüência dos valores que cultuamos, das nossas
escolhas, das nossas atitudes. Se a nossa felicidade
for baseada em algo transitório, perecível e
volátil, naturalmente que indo a causa, acabará o
efeito. Por isso desejo o que me parece essencial
para a saúde física (vide o que vem dizendo a
psiconeuroimunologia), mental e espiritual: que eles
sejam otimistas, alegres, solidários, honestos,
afáveis, firmes, severos (não ignorantes) na defesa
dos princípios que norteiam os homens e mulheres de
bem, nobres de caráter, enfim. Com isso tudo, quero,
no fundo, o que diz um verso de uma bela letra de
música de Roberto e Erasmo Carlos: “quero meu filho
pisando firme, cantando alto, sorrindo livre”.
Não é pouco!!!
Ah, diremos todos, mas são tantas as
variáveis! E são mesmo; muitas delas que não passam
pela nossa autonomia de vontade, mas essa
constatação tem o efeito de nos convocar a estar
ainda mais atentos e ativos em relação àquelas que
nos competem, tentando não deixar passar detalhes
tão sutis que parecem pequenos, mas que têm grande
ressonância. Há uns dois anos tive um exemplo disso
quando os meus chegaram esbaforidos e falando ao
mesmo tempo, cada um com o estojo de material
escolar (de canetas, lápis, borrachas, etc,
etc) nas mãos, exigindo que eu os organizasse.
Surpreendida, inicialmente observei que se tratava
de uma tarefa muito simples e perfeitamente adequada
à idade deles; a par disso, perguntei-lhes quem
tinha desorganizado os estojos; eles, perplexos
responderam sem entender onde eu queria chegar:
“nós”; então disparei outra pergunta: “e porque eu
deveria arrumar os estojos que vocês desorganizaram
e que podem muito bem organizar?” Eles então
ostentaram aquela cara de ofendidos (aquela típica
de quando são contrariados) e ela (a mais velha),
foi rápida e categórica na resposta: “Porque você é
mãe e a mãe tem que ajudar o filho a arrumar o
estojo”. Evolução total, pensei, já que ela agora já
não “exige” que eu arrume e sim que eu os ajude a
arrumar. Repliquei compenetrada (um esforço hercúleo
para não dar uma boa risada) que eu estaria sempre
disposta a ajudá-los no que fosse necessário, mas
que a arrumação do estojo era uma tarefa que eles
poderiam muito bem desenvolver sozinhos. Eles
refletiram por cinco segundos, acredito que
concordaram com a minha resposta, porque saíram
calados, com cara de bons amigos e arrumaram os
respectivos estojos.
Foi a historinha acima que me
despertou a vontade de escrever este artigo. Levei
dois anos para enfim escrevê-la. Espero que meus
filhos levem com eles pelo resto da vida a noção da
necessidade de cumprir a parte deles no concerto
universal. Vale a pena fazer a nossa parte para
tentar melhorar a sinfonia.