Artigo

 

Evocações de Garcia Moreno

 

Vladimir Souza Carvalho

 

            O fato, sei, por ouvir dizer.  O juiz de direito de uma das poucas varas da Comarca de Aracaju necessitava mandar um ofício para a direção do Hospital Adauto Botelho. Depois de ter lido o expediente, datilografado pelo escrivão, observou o final: Atenciosas Saudações. Só aí lembrou-se de que o diretor do hospital era Garcia Moreno. Recusou-se a assinar. Não gostava de Garcia Moreno. Alguma querela relacionada à Academia Sergipana de Letras. Mandou cortar o termo atenciosas. Ficaria só saudações. O destinatório não merecia tanto. Deve ter dito. Aí, então, datilografado novo ofício, assinou.

            Pois bem. Garcia Moreno soube do detalhe. Aracaju, bem pequena à época, proporcionou-lhe o conhecimento. Respondeu ao expediente, de forma solene. No final, fez constar do ofício: Sem saudações de espécie alguma.

            Se verdadeiro ou não o fato, não sei. É pedir muito para mim que de Garcia Moreno fui apenas leitor e aluno. Leitor de seus livros de artigos, LETRAS VENCIDAS, DOCE PROVÍNCIA e CAJUEIRO DOS PAPAGAIOS. Aluno de Medicina Legal, na Faculdade de Direito da Rua da Frente, no ano, exatamente, de 1972, salvo engano de memória. A disciplina figurava no quarto ano, se não estiver enganado. Mas, aluno e leitor são coisas miúdas e pequenas, não proporcionando ao admirador a honra de sentar ao seu lado, no Cacique Chá, como faziam muitos magistrados e advogados, da época. Eu, de minha parte, nem sabia de tais reuniões, no final da tarde, Garcia Moreno, único médico na mesa, a pontificar com a sua inteligência e  ironia, arrancando risos dos que o cercavam. Esta honra não carrego.

            Como aluno, não medi distância. O mestre me era conhecido, quer pela minha condição de itabaianense, ou seja, pessoa que já tinha tido unha cravada arrancada pelo Dr. Pedro, seu irmão, quer pelo fato de ter lido seus três livros. Mas, não era em uma ou outra condição que me apresentava, e sim como sobrinho-neto de Sebrão, sobrinho. Inocentemente, dizia a Garcia Moreno que era sobrinho de um colega seu de Academia Sergipana de Letras. E, ante o seu silêncio, declinava o nome de Sebrão, sobrinho. Garcia Moreno ria, sem esboçar nenhum comentário. Depois, muito depois, é que percebi o perigo que passei. Sebrão, sobrinho, e Garcia Moreno não se bicavam. Garcia deve ter dado alguma piada com relação ao estilo do meu tio-avô e este respondeu lembrando a sua origem de neto de um padre e de sua companheira. Comigo, o mestre de Medicina Legal não perdeu a elegância. Continuei, sempre que podia, a relembrar o parentesco.

Medicina Legal era a matéria que o fazia professor da Faculdade de Direito. Os de minha geração para trás foram alunos de Garcia Moreno. Os que vieram depois, não sei. A diferença entre os que foram seus alunos e os que não foram é o ponto nevrálgico. Os que não foram, não podem calcular o que perderam, com todo o respeito a quem, depois, lecionou Medicina Legal na Faculdade de Direito, porque ser aluno de Garcia Moreno representou, acima de tudo, um privilégio, por não ter tido outro professor, em tantos e tantos de banco escolar, que lhe igualasse em ironia. Altamente competente na matéria, discorrendo com calma, enfrentando uma temática que, a gente, bacharel em ciências jurídicas e sociais, não fazia idéia da importância, sobretudo pela sua característica médica, não perdia a oportunidade para, aqui e ali, deixar escapar a sua irreverência.

Eu estava atento aos movimentos e as palavras de Garcia Moreno, ali, no seu calcanhar, marcador implacável. No final do ano, uma prova oral me daria matéria para rir a vida inteira. Garcia Moreno desceu do pedestal da sua cátedra, para, abaixo do tablado, se sentar numa carteira, colocando outra, a sua frente, onde o aluno se acomodava. Não havia ponto sorteado. A prova abrangia toda a matéria. Sentada uma aluna, das mais bonitas da turma, senão a mais, que trazia o livro todo decorado. Onde o mestre fosse, ela iria, com a segurança da memória.

Do que me lembro, foi só uma pergunta formulada:

- O que é estupro?

A aluna, prontamente, seguindo as pegadas de Helio Viana, autor de Medicina Legal, que todos nós tínhamos, respondeu:

- Estupro é a penetração do pênis ereto ...

Garcia Moreno interrompia e decretava:

- Pleonasmo.

A aluna, segura de sua decoreba, não entendia onde estava, afinal, o pleonasmo. E voltava a repetir o conceito que o livro adotava. Na segunda observação do mestre, de que era pleonasmo, a aluna criou coragem e, enfim, enfim, perguntou onde estava o pleonasmo. Ora, ora, respondeu Garcia Moreno, o pênis só penetra se estiver ereto.

Ninguém riu. A observação do mestre deixava todos calados. Não sei como a prova oral foi encerrada. Nem como as outras se processaram. Eu, de minha parte, estava satisfeito. Testemunhava uma observação que só aqueles que freqüentavam o Cacique Chá, ao seu lado, podiam se vangloriar da regalia. Eu poderia dizer, doravante, aos deuses e a todos os santos, por diversos anos e por ocasiões diferentes, que vi o gênio em plena efervescência, e, se me faltasse outro mérito, inseriria no meu curriculum vitae uma só frase: fui aluno de Garcia Moreno.

Luiz Antonio Barreto, depois, numa tarde sem sol, em outubro de 1976, no Cemitério que fica atrás da Igreja do Bomfim, em Laranjeiras, ante o caixão que guardava os restos mortais de Garcia Moreno, disse uma frase que não esqueci:

Garcia Moreno tinha tudo para ser um gênio, se tivesse nascido no sul do país. Até no pomposo nome: João Batista Peres Garcia Moreno. Eu ouvia, a uma certa distância, muitas pessoas em minha frente. A frase ficou na minha mente. Era verdade. Como permaneceu em Sergipe, a Pátria não o conheceu, exclusividade só nossa, e, mais do que isso, só daqueles que, como eu, foram seus alunos, alunos de Medicina Legal, ouvindo o professor, sem paletó, camisa de manga curta, cigarro na mão, destoando dos demais, na simplicidade de quem não era, como os outros, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, e sobretudo, na sua veia satírica. Um gênio, sim, desses que, infelizmente, não se fabrica mais.

 

 

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