O crime da Rua de Campos
Vladimir Souza Carvalho (*)
Dos tempos de menino,
dois crimes, em especial, ocorridos em Aracaju,
me chamaram à atenção, pela zoada que,
atravessando a longa e sinuosa estrada que
ligava Aracaju a Itabaiana, chegava ao nosso
pequeno mundo. As notícias vinham pelo
noticiário das rádios, dos jornais e, sobretudo
e principalmente, enfatizo, pelas conversas dos
que viajavam até Aracaju, e, de volta a
terrinha, derramavam as novidades ouvidas.
O assassinato do
menor Carlos Werneck foi o primeiro deles. O
sapateiro La Conga e a esposa Edite, os
assassinos, presos, processados e condenados.
Até livro de versos de feira inspirou. Anos
depois, quando, no 1o. ano de
Direito, na [extinta] Penitenciária, numa festa
de Santo Ivo, conheci La Conga e pude ver sua
cela, sapatos pendurados nas paredes, ao lado de
um ou dois quadros, La Conga alto e magro,
calado, recluso dentro da prisão, fechado em seu
silêncio, a ganhar prêmio de bom comportamento.
O outro foi o do Dr.
Carlos Firpo. Este, bem diferente. O médico,
dormindo, em sua residência, apunhalado, a dor
imensa, do instrumento fatal a lhe cortar o
coração, a fazê-lo berrar de dor, gritos que
muitos dos vizinhos teriam ouvido. Foi assim que
a notícia nos chegou. Ao lado, a acusação de ter
sido a esposa a mandante, e, aí, justamente aí,
a nuança romântica, a se esconder na paixão que
a acusada teria por um major da Aeronáutica, a
motivar o crime. Também os nomes dos dois
assassinos: Pereirinha e Timóteo, que ficaram
gravados em minha memória e até agora, pelo
menos, não conseguiram se desgrudar. A viúva
terminou presa.
A
vítima teve seu nome dado a uma avenida e a vida
passou. Anos e anos depois, uma carta
precatória, oriunda da Justiça castrense, exigiu
meu deslocamento a casa onde o crime ocorreu, a
fim de intimar um preso que lá se encontrava
detido, sob a custódia da Polícia Federal.
Servidor da Justiça Federal, com a condição de
estudante de direito, recebi a missão e fui, um
tanto curioso, ingressar na residência do
assassinato do dr. Carlos Firpo, vindo-me à tona
as conversas que ouvia em criança acerca do
fato.
Já em anos recentes,
numa solenidade da Academia de Letras da
Sociedade Médica de Sergipe, na galeria dos
presidentes da classe, o retrato de Carlos Firpo
me fez recordar toda a história. Examinei a foto
com calma. Conclusão: achei-o feio, sem encanto
algum, e mais uma vez, o crime, escondido lá nos
meandros da infância, voltava a brotar.
Finalmente, via o retrato da vítima, cujo nome
ouvi tanto.
Depois, em ocasiões
diferentes, três diálogos me deram mais munição.
Um, com um médico, cujo familiares eram ligados
a acusada-viúva, a esbaldar uma versão que eu
não conhecia, a inocentá-la. Em seguida, um
eminente advogado me revelava que estava a
escrever sobre o crime. Após, outro amigo me
confessa o desejo de pesquisar o processo para
fazer, também, um livro sobre o fato, a começar
pelo diálogo que teve, na manhã seguinte à noite
fatal, quando, menino, passava pela rua de
Campos e conversou com o Secretário Heribaldo
Dantas Vieira, que se encontrava no local.
Por tudo, uma
conclusão simples: o fato não morreu. A vítima
foi sepultada, ganhou nome de avenida, a viúva
presa, respondeu a júri, não sei se condenada ou
não, mas o fato permanece vivo, a desafiar
versões que, talvez, os autos não tenham
captado. Crime danado. A apunhalada no peito do
Dr. Carlos Firpo ganhou conotações de
eternidade, saindo dos noticiários policiais
para as páginas da história. Em outra dimensão,
digamos, só por força de argumentação, se
juntando ao assassinato de Euclides da Cunha, ao
da família imperial russa, ao do major Rubens
Vaz, no Rio, etc. e etc.
Agora, me deparo nos
jornais com a referência à série de artigos que
Luiz Eduardo Costa vem publicando, ou publicou,
sobre o crime, e, em seguida, a boa notícia: os
artigos vão ser reunidos em um livro. O crime da
rua de Campos, cinqüenta anos depois, permanece
vive, como se o cadáver da vítima não tivesse
ainda sido sepultado, ou como se o fato exalasse
a podridão que continua permanente, nas versões
que circularam envolvendo tanta gente ilustre, o
destino dado aos dois assassinos, na mistura de
conversas, fatos verdadeiros, boatos e verdades
fabricadas que, a gente, lá em Itabaiana, ouvia
dos mais velhos, que, por seu turno, escutavam
nas ruas de Aracaju.
A história é polêmica
e extremamente turbulenta. Se o crime em si se
marca pela simplicidade, na visão de quem, como
eu, participa da vida judiciária há quase quatro
décadas, na condição de serventuário de justiça
e, depois, na de magistrado, afinal, um homem
foi assassinado por instrumento perfuro-cortante,
quando dormia, em sua residência, as cenas que
se seguiram, na investigação do delito,
deram-lhe a cor que, talvez, quem planejou o
crime, não tenha calculado onde a água ia
desaguar. A prova disso é a reação do Dr. Marcos
Vieira (Jornal da Cidade, de 14 e 15 do
corrente) e a imediata resposta de Luiz Eduardo
Costa (Jornal da Cidade, de 21 e 22 de
corrente), por fatos contidos nos artigos
referidos. E, cá para nós, deixando a areia
assentar no fundo do copo, não poderia ser
diferente. Uma vez, publiquei caxangás que, em
1916, foram divulgados em Itabaiana, e ganhei,
no seio familiar, algumas caras feias, mesmo
levando em conta o transcurso de sessenta anos.
Imagine agora um crime, com tantos meandros,
com o romantismo já destacado de uma paixão
escondida no peito. E o pior, segundo sempre
ouvi: o casamento tinha tudo para dar errado,
porque, durante a Segunda Grande Guerra,
estudantes teriam invadido a residência da
noiva, quando solteira (hoje sede da Cúria
Metropolina), acusado o pai de ser espião
italiano, e rasgado o enxoval da respectiva,
fato que, na visão dos mais velhos, anunciava má
agouro para os noivos.
Não li os artigos de
Luiz Eduardo Costa. Vi a carta do filho de
Heribaldo Dantas Vieira, e a resposta, aliás,
muito bem escrita, de Luiz Eduardo Costa. Penso
que agora não há lugar para outro fato a não ser
o livro, reunindo os artigos e outras
observações e acréscimos que a matéria exige,
principalmente quando dispostas em forma de
páginas, detalhes que Luiz Eduardo Costa, de
antemão, saberá suplantar. O crime da Rua de
Campos já merece, de muito e muito, o recalmão
do livro. Estou, na arquibancada da história, a
aguardá-lo, com a mais profunda curiosidade.
(*) O autor, pesquisador e ficcionista, é
responsável, semanalmente, por esta coluna.
Publicado no
Correio de Sergipe, edição de 27 de setembro de
2008.