Os sergipanos
estrangeiros -
por Vladimir Souza
Carvalho
No
Império, os
presidentes da
Província sergipana
não eram sergipanos.
Na condição de
pessoas da confiança
do Imperador,
recebiam o encargo
de presidir a
Província em um
período
indeterminado, que
poderia ser curto ou
longo. Vinham de
fora, da mesma forma
que sempre tivemos,
por aqui, ontem e
hoje, em um exemplo
mais contundente, as
figuras dos
comandantes das
guarnições
militares.
Naturalmente que
homens de escol
honraram a
Presidência de
Sergipe com
realizações
dignificantes. Sendo
alienígenas,
contudo, não tinham
a menor idéia da
Província
[sergipana], a não
ser os conhecimentos
geográficos que
fossem obrigados a
assimilar, para,
afinal, não ficarem
a ver navios nas
novas terras. A
realidade lhes era
desfavorável, em
função de serem
estranhos ao ninho.
De sergipanos mesmo,
só os
vice-presidentes,
que assumiam nas
ausências do
titular. E, como as
distâncias eram
grandes e difíceis
de serem
suplantadas, o
Império nomeava, às
vezes, até cinco
vice-presidentes, de
forma que, numa
emergência, um vice,
não podendo assumir,
o outro, na
seqüência da lista,
entrava em exercício
pleno e a pátria
estava salva. A
dificuldade, em
função da distância,
era tamanha, que o
último presidente
dos tempos
monárquicos, Manoel
Joaquim de Lemos,
não chegou a
desembarcar, dada a
notícia da
proclamação da
República, ficando a
zanzar na
embarcação,
saboreando o verde
da Barra dos
Coqueiros e a
mudança das marés no
Rio Sergipe, porque
o Império, que o
tinha nomeado
Presidente da
Província sergipana,
não mais existia.
Retornou ao Rio de
Janeiro, sem a
primazia de ter
pisado em solo
sergipano.
Com a República, a
paisagem permaneceu
quase a mesma. Os
presidentes de
Sergipe saíram do
colete do presidente
da República, como
antes saíam do bolso
do Imperador. A
diferença estava em
dois pontos:
primeiro, teriam de
disputar uma
eleição, mesmo que,
hipocritamente,
fosse de cartas
marcadas e
fraudadas. Os do
Império não passavam
por esse teste,
ainda que a eleição
republicana fosse só
de mentirinha.
Segundo, os
candidatos à
presidência eram
sergipanos. Ou seja,
não eram mais
notáveis
desconhecidos do
Estado.
No período da
República Velha,
morando no Rio de
Janeiro, tivemos na
Presidência do
Estado,
inicialmente,
Felisbelo Freire, e,
depois, Oliveira
Valadão, Martinho
Garcez, Pereira Lobo
e Gracho Cardoso.
Moradores de
Salvador: Rodrigues
Dórea e Siqueira de
Menezes. No final, o
maior exagero
possível, na eleição
de Ciro de Azevedo,
de idade avançada,
que, em Sergipe,
evidentemente,
deveria ter mais de
cinqüenta anos sem
colocar os pés. Um
problema de saúde,
com pouco tempo de
governo, o fez
retornar ao Rio de
Janeiro a fim de
morrer em solo
carioca. A viagem de
ida e volta,
Rio-Aracaju e
Aracaju-Rio, talvez
tenha apressado a
sua morte. Aníbal
Freire, na década de
vinte, recusou ser
candidato. Não lhe
interessava voltar a
morar em Sergipe,
ainda que por quatro
anos.
Mas, na República,
já havia uma
suavidade na
paisagem, esgarçada
no detalhe de os
escolhidos serem
sergipanos, ainda
que afastados do
Estado natal, com
vida estabelecida em
outras capitais do
país. Tanto que, uma
das leis que
primeiro cuidavam de
aprovar era de
autorização da
Assembléia a fim de
viajarem para a
cidade de sua
moradia real, por um
período de um mês, a
fim de, a lei não
dizia, claro, cuidar
de interesses
meramente pessoais.
Com Martinho Garcez,
o lado romântico.
Dizem que teria
trazido a Sergipe
duas mulheres,
ficando cada uma em
ala própria, no
Palácio, fato que,
evidentemente, devia
chocar a então
sociedade
aracajuana.
Certo que o
candidato a
vice-presidente, nos
tempos republicanos
primevos, era
sergipano residente
em Sergipe. Também,
não era possível que
tivéssemos de
receber e eleger
ilustres patrícios
moradores de Estado
outro, tanto para
presidente, como
para vice. Um
sergipano, aqui
fixado, parecia ser
a fórmula certa para
mostrar a conexão da
chapa, em seu todo,
com o Estado. A
vitória do sergipano
estrangeiro
representava a
homenagem que o
Estado prestava a um
filho ilustre, que
fez nome lá fora. A
ligação da terra era
com o vice, que aqui
residia. Poderia ser
esta a filosofia, se
a eleição não fosse
previamente viciada.
Algumas exceções,
que as
circunstâncias
cuidaram de impor,
ocorreram à regra
geral. Moradores em
plagas sergipanas,
nesse período,
anotamos os nomes de
José de Calazans,
Olimpio Campos,
Josino Menezes,
Guilherme Campos e
Manoel Dantas.
Francisco Porto, que
não chegou a tomar
posse, porque a
Revolução de 1930
não permitiu, podia
aumentar o rol.
Nessas duas
relações, uma
vitória de oito a
cinco dos sergipanos
estrangeiros, homens
que, por mais boas
intenções que
carregassem,
estavam, como
estiveram os
presidentes dos
tempos monárquicos,
completamente
alheios à realidade
local, sem
conhecerem de
Sergipe nada mais
que a terra natal,
quando meninos. De
sergipanos, tinham a
origem. Só. No mais,
estavam
perfeitamente
adaptados à vida
outra, carioca e
soteropolitana,
respectivamente (e
européia, no caso de
Ciro de Azevedo),
não se preocupando
nem em manter
residência de
fachada na capital
do Estado. Rodrigues
Dorea e Siqueira de
Menezes sempre
residiram em
Salvador. O
primeiro, inclusive,
depois de ocupar a
presidência,
permaneceu fiel a
sua residência
próxima a Igreja do
Bomfim, em Salvador.
Pereira Lobo, quando
presidente, já na
década de vinte do
século passado,
recebeu da
comunidade política
uma casa de
presente, para
moradia, vizinha a
sede da Polícia
Militar, à rua
Itabaiana, derrubada
a pouco menos de
quinze anos,
chamada, à época, de
Palacete Pereira
Lobo. O General
Valadão, duas vezes
presidente do
Estado, ao falecer,
foi sepultado no Rio
de Janeiro, por
vontade da família.
Não havia, afinal,
nada que motivasse o
traslado dos seus
restos mortais ,
além do transporte,
à época, ser o
navio, o que levaria
vários dias para,
finalmente, atracar
na Ponte do
Imperador. Como
justificar tanto
trabalho e tempo
para fazer uma coisa
que podia ser
realizada no Rio de
Janeiro em um só
dia?
Com a
Redemocratização,
fruto da
Constituinte de
1946, o velho
problema, vindo do
Império, foi de uma
vez por todas
consertado. Nenhum
governador eleito
veio de fora, mesmo
que fosse sergipano.
Todos por aqui
residiam. Foi uma
vitória que levou
muitas e muitas
décadas para se
firmar como uma
conquista do Estado.
Afinal, como
defendia Gilberto
Amado, em um de seus
entreveros com a
Presidência da
República: os
problemas de Sergipe
se resolvem em
Sergipe. Já era
tempo. Amém.