Artigo

O PRIMEIRO JUIZ FEDERAL TITULAR

 

Vladimir Souza Carvalho (*)

 

           

O primeiro juiz federal, na condição de titular, da Justiça Federal sergipana, depois da restauração, em 1968, foi o dr. Joviniano Caldas Magalhães. É bem verdade que, até a sua posse, o dr. Geraldo Barreto Sobral, na condição de substituto, ocupou, interinamente, o posto de titular. Como a presença do primeiro titular só vai se verificar alguns anos depois de instalada a Seção Judiciária, o fato gerou, entre nós, magistrados de uma nova época, quando da colocação dos retratos de todos os juízes no Salão Nobre do Fórum Ministro Geraldo Barreto Sobral, uma profunda dúvida acerca de quem seria o primeiro retrato da galeria. Optamos pela foto do dr. Geraldo Barreto Sobral, porque, mesmo sem ser titular, fazia as vezes de titular, enquanto este não se fazia presente. 

O dr. Joviniano Caldas Magalhães teve passagem rápida por Sergipe. Rápida, não, rapidíssima. Juiz substituto da Seção Judiciária do Rio de Janeiro, foi promovido a titular quando a idade de setenta anos estava batendo a sua porta. Chegou a Aracaju em uma sexta-feira, farreou no sábado, visitou Laranjeiras no domingo, onde gabou-se de sua condição física e de suas proezas amorosas. Na segunda-feira tomou posse, na terça completou setenta anos, viajando na quarta-feira de volta para o Rio, devidamente aposentado. Foi mais ou menos assim, salvo engano. Jackson da Silva Lima, então Diretor de Secretaria, poderá, melhor que eu, especificar os dias de atividade do dr. Joviniano entre nós. 

Apesar da passagem meteórica, um fato especial ficou, durante a sua posse. À míngua de platéia, todos os poucos servidores foram convocados para o gabinete do novo magistrado, a fim de presenciar o ato. Não havia ainda o costume de se tomar posse em auditório, tão comum nos dias de hoje. O dr. Jovianiano, nortista de algum desses ex-territórios, nascido em terras indígenas, quis ressaltar a sorte que tivera em nascer branco, fator que facilitara seus estudos, observe-se bem. E, logo no início do discurso, enfatizou:

-  Graças a Deus, nasci branco.

Foi uma bomba atômica! No meio dos poucos servidores, dois, de pele escura, ouviram com preocupada atenção. Calados estavam, calados ficaram. Na saída, um comentou com o outro: Se esse homem fica por aqui, a gente saía como urubu, na pedrada. O efeito da frase foi fatal, embora não carregasse tal intenção. Mas, interpretada literalmente, não haveria, como não há, outro sentido, mesmo porque, no novo magistrado, havia qualquer coisa de teatral, sobretudo na simulada dor no coração que aparentou ter sofrido, ao iniciar seu discurso, dor que logo desapareceu e ninguém falou mais no assunto. 

Servidor, à época, convocado, no momento da posse, para fotografar a solenidade (o titular trazia uma Yashica, 6x6, que me passou às mãos, sem explicação alguma), tive o desprazer de não conseguir encontrar o foco direito para as fotos, que, uma vez reveladas, devem ter deixado o dr. Joviniano irritado por não ter imortalizado o instante solene em que passava, por dois dias, a ser o primeiro juiz federal titular, em exercício, da Seção Judiciária de Sergipe. Felizmente, na revelação, o dr. Joviniano já não se encontrava em Aracaju, nem mandou nenhuma reclamação depois, via carta ou telefone.

Pois bem. Esses fatos ocorreram nos anos setenta, setenta um ou setenta e dois, não me vêm bem à memória. Dos servidores presentes a posse e que tiveram contato com o dr. Joviniano, somente eu me encontro em atividade.  A aposentadoria e a morte já levaram os demais. O destino, contudo, me reservaria, depois, outro contato com o dr. Joviniano, embora ele já estivesse em outro mundo. Anos e anos mais tarde, em uma conversa com o des. [federal] Paulo Freitas Barata (ou Barata Freitas), então presidente do Tribunal Regional Federal da 2a. Região, perguntei-lhe se tinha conhecido o dr. Joviniano Caldas Magalhães. Como resposta, o des. Paulo Freitas me indagou o que eu queria do dr. Joviniano. E, de pronto, respondi: o retrato. É que, à época, já no Fórum Ministro Geraldo Barreto Sobral, a gente participava da organização da galeria de retratos de todos os juízes federais, tanto os da República Velha, como os da restauração para cá.

Não esqueci o comentário do des. Paulo Freitas, ao me revelar que o dr. Joviniano, poucos meses antes de morrer, tinha ido ao seu gabinete, entregar o  retrato. Tome, guarde, um dia vão precisar dele, teria dito. A previsão tornou-se realidade. Dias depois, recebi o envelope com o retrato, que, no momento oportuno, foi colocado na galeria dos juízes federais da Seção Judiciária de Sergipe, no Salão Nobre Tobias Barreto, no Fórum Ministro Geraldo Barreto Sobral, onde se encontra. 

Evidentemente que me veio à mente as peripécias do dr. Joviniano, nos pouquíssimos dias que passou por Sergipe, inclusive o jantar, na segunda-feira, no restaurante O Vaqueiro, para o qual fui escalado, porque ninguém agüentou o rojão e o papo do titular. Eu, então mero datilógrafo, tive essa honra de ouvir o ilustre visitante e magistrado falar, com o dono do restaurante, dos projetos que tinha para desenvolver Sergipe. E, depois, em A MODA, quando, já de saída, comprou gravatas para distribuir com alguns servidores (eu ganhei uma), mostrou seu encanto com as jovens servidoras daquela casa comercial, que ficaram todas alvoroçadas com o magistrado aposentado.

Hoje, décadas e décadas depois, vendo a galeria em referência, deparo-me com o retrato do dr. Joviniano Caldas Magalhães, e bato palmas para o cuidado que teve de tornar alguém depositário de seu retrato, na certeza de que, um dia, no futuro, dele iam precisar, como de fato veio a ocorrer. Lastimo, a esta altura, que não tenha conseguido manejar sua Yashica 6x6, no dia da posse, ante a falta de iniciativa de lhe pedir para me ensinar a usá-la. A solenidade estava começando e, infelizmente, a idéia não me veio à mente, afinal, a minha timidez falou mais alto naquele momento, tudo para não atrasar o ato. Por causa disso, sinto-me responsável pelo fato de a Justiça Federal sergipana não dispor de fotos da posse do seu primeiro juiz federal titular.

            A idéia da galeria, já referida, e o sucesso na obtenção do retrato dele, suavizam a minha culpa, minha máxima culpa, no aspecto.   

 

 

 

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