Artigo

 

A justificativa do adultério - por Vladimir Souza Carvalho*

           

Esperando o decreto de remoção para a comarca de Campo do Brito ser assinado, foi uma das minhas últimas audiências na de Nossa Senhora da Glória. Era uma tarde de relativa folga. Talvez de uma terça-feira. Falta a certeza.  Audiência de conciliação em ação de divórcio litigioso. De um lado, um cidadão, já de certa idade, bem vermelho, lenço permanente no rosto a limpar os olhos, cara de quem se encontrava abafado pelo ambiente ou pela circunstância. De outro, ela, a esposa, morena, muito mais jovem que o marido, relativamente bonita, para os padrões locais. Ambos eram assistidos por advogados alagoanos, fato que me chamou a atenção. O do marido era o dr. Francisco de Araújo Dantas, Promotor na vizinha (de Poço Redondo, que, à época, integrava a jurisdição de Nossa Senhora de Glória) comarca de Pão de Açúcar, no território alagoano, acostumado a atravessar o Rio São Francisco para patrocinar causas do lado sergipano. O dela era o dr. Aderval Wanderley Tenório, que, até então, me era desconhecido.

Dei início à audiência, na hora aprazada, abrindo espaço para as partes discutirem um acordo. Enquanto isso, eu ia despachando alguns processos, para não perder tempo. No interior, pelo menos, à época, a fórmula era esta: as partes discutiam, o juiz despachava, todos na mesma mesa, para não se perder tempo. Até a temperatura amena, não específica do sertão, naquele exato momento, favorecia o ritmo de valsa, sem pressa, o tempo da tarde inteira à disposição do casal. A conciliação era algo difícil de atingir, no caso. Já conhecia a história do fracasso do casamento, a infidelidade acentuando ainda mais o hiato que colocava os cônjuges em posição cada vez mais distante e antagônica. Não custava tentar. A lei determinava. A vontade da norma seria cumprida, o Judiciário proporcionando aos litigantes o tempo suficiente para a concretização de um acordo.

Comecei a despachar, sem pressa, também. Os dois ilustres advogados alagoanos discutiam propostas. Tudo se esbarrava na partilha dos bens, como sempre. Salvo engano, uma fazenda e muita cabeça de gado em jogo. A sociedade conjugal já estava morta. Proposta para lá, proposta para cá, o estranho casal se mantinha calado, só os seus advogados falando, quando, de repente, ante a alguma nova proposta que a demandada, via seu procurador, formulava, o dr. Francisco de Araújo Dantas, sempre comedido e educado, alteou a voz, dando um tom queixoso as suas palavras, quebrando, completamente, a formalidade da audiência:

- Assim não é possível, Aderval. (Deviam ser amigos, porque nem o substantivo doutor foi utilizado). Esta senhora traiu a confiança do marido, colocou o amante dentro de casa, vendeu gado escondido, e, agora, ainda quer ficar com a fazenda, com o gado, com tudo!

O tom de voz do advogado do velho me fez parar de despachar os processos, que tinha em mãos, para tomar pé da situação. O momento exigia uma palavra minha, na tentativa de jogar água e esfriar o ambiente. Não era comum ver o dr. Francisco de Araújo Dantas falar assim. Militando na comarca, sobretudo em feitos criminais de Monte Alegre de Sergipe e de Poço Redondo, o ilustre advogado alagoano se portava com muita fineza e elegância, de forma que, como magistrado, sentia que o instante reclamava as minhas palavra e intervenção. Não tive, contudo, oportunidade de abrir a boca. O dr. Aderval Wanderlei Tenório, de forma bem jocosa, sem atentar para o ambiente de seriedade que a ocasião exigia, saiu com uma justificativa que me deixou calado, com vontade de rir, confesso. Afinal, mesmo com a toga de juiz, eu não deixava de ser humano.

A justificativa foi mais ou menos esta:

- Ora, Chico (ou teria sido Francisco?). O que é que você quer? Uma morena dessa, bonita, casa com um velho desse, remelento, é para botar ponta mesma, Chico. Ora!                                                                

Pois bem. Nada mais guardei na memória senão o olhar de espanto que o velho fazia, com o lenço, permanentemente, na mão. Evidentemente, a audiência de conciliação se transformava em um fracasso. A etapa se ultrapassava, sem sucesso algum. Como o feito terminou, também não tenho a menor idéia. Minha passagem pela comarca de Nossa Senhora da Glória, etapa primeira de minha carreira de magistrado, estava chegando ao final. Cada semana era uma a menos. A esta altura, candidato único para a comarca de Campo do Brito, bem pertinho de Itabaiana, onde estava a residir, minha alma já estava bem longe do sertão da Boca da Mata.

Das partes, o velho, a esta altura, vinte e sete anos depois, acredito que esteja morto. A mulher, por certo, sofreu os rigores do tempo e do clima quente do sertão sergipano. Não deve ter nada mais de atrativo. O dr. Francisco de Araújo Dantas, a quem comuniquei, anos depois, que estava em Maceió, como juiz federal da 2a. vara, não vi mais. Certamente que a aposentadoria já lhe bateu as portas há muito tempo. Já com o dr. Aderval Wanderley Tenório, voltei a ter contato, em Maceió, em função de um processo criminal, tendo por objeto algum problema com bens da Codevasf, em Penedo. Depois, teria oportunidade de vê-lo em programa eleitoral, como candidato ao Senado da República, nas tevês alagoanas, azucrinando Fernando Collor que o considerava como o maior marajá das Alagoas.

Alguma coisa do fato (que misturei a outro) me inspirou na elaboração de um conto, que integra o livro ÁGUA DE CABAÇA. É fácil saber qual foi.

(*) Pesquisador e contista, responsável, quinzenalmente, aos sábados, por esta coluna. 


 

 
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