Artigo

 

EPIFÂNEO: OS LIVROS, ENFIM

                                                                                                           por  Vladimir Souza Carvalho

 

            De Epifaneo Dorea, a lembrança do homem baixo, óculos de garrafa, terno de linho, talvez azulado, chegando ao Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe com um acompanhante, por não ser mais conveniente deambular sozinho, e ao que parece, já surdo, sem ouvir aquilo que algum servidor, falando bem alto, tentava lhe transmitir. Devo ter escutado que aquele era Epifaneo Dorea, e, num gesto de admiração, parei para melhor fixar a cena. Não era em todo instante que a sua presença se fazia notar naquele recinto, que foi tão seu. Contudo, a figura que via a frente era totalmente diferente do retrato erguido na entrada do Instituto.

            Estaríamos juntos, depois, em acontecimento especial. A Prefeitura Municipal de Aracaju, homegeando Epifaneo Dorea  e outras personalidades cujos nomes não vêm à baila, com absoluta certeza, como Francisco Bragança e Joaquim Sobral. Eu, no meio dos venerandos homenageados, a receber uma medalha, em 17 de março de 1973, ao pé da sepultura de Inácio Barbosa, em nome de Sebrão, sobrinho, meu tio-avô, então falecido. Na foto, que conservei, os homenageados estão sentados. Epifaneo, no meio, careca, o cabelo remanescente branco, as pálpebras fechando os olhos, o rosto voltado para a câmara do fotógrafo oficial. Talvez a última homenagem que Aracaju lhe prestava. Para minha maior honra, estou na foto. 

            A esta altura, prestes a concluir SANTAS ALMAS DE ITABAIANA GRANDE, folheando os velhos jornais, ia me deparar, com frequência, com artigos de Epifâneo Dorea, sobre fatos dos mais variados da história sergipana e brasileira. O estilo claro, a preocupação com as fontes, o comentário, o elogio às personalidades focalizadas, a refletir o homem moderado, no que diferia e bem de Sebrão, sobrinho, seu contemporâneo, sempre preparado para uma polêmica, incapaz de uma gentileza se a personalidade histórica não a merecesse.  TOBIAS BARRETO, O DESCONHECIDO, e LAUDAS DA HISTÓRIA DO ARACAJU, refletem o estilo de Sebrão. Epifâneo, ao contrário, é a disciplina, a educação, o pesquisador que não quer discussões, a informação a par da fonte, a frase colocada de forma direta, quase didática, para melhor ser compreendida. Entre um e outro, a diferença era enorme, acentuada mais ainda por um detalhe singelo: Epifâneo não publicou nada em forma de livro, deixando todo o material, que escreveu, disperso em jornais e em revistas, a se constituir em valiosas peças que, infelizmente, sem um índice, só pode ser encontrado em jornais, e, cá para nós, jornais velhos, que o tempo vai acabando aos poucos, lenta e criminosamente.

            O mal dos artigos de jornal se reflete na obra, em seu conjunto, de Epifâneo Dorea. Necessário cotejar jornal por jornal, edição por edição, coleção por coleção, para, em se deparando com o que Epifâneo escreveu, ver aquilo que pode ser útil ou não. Ao jornal, falta tudo, sobretudo o índice. Como saber, afinal, acerca de que Epifâneo escreveu? Qual a matéria? Qual o assunto? Folhear quarenta anos de jornais não é uma empreitada fácil. A obra de Epifâneo Dorea, aninhada nas páginas dos jornais, a correr o risco de passar ignorada. Talvez não se tenha, em nível sergipano, nenhum caso idêntico.

            No resgate de parte dos artigos de Epifâneo, o anjo salvador  surgiu na figura de Ana Maria Fonseca Medina, Fonseca como Epifâneo era, que, numa paciência danada, salvou, das páginas dos jornais, inúmeros e inúmeros artigos de Epifâneo, sob o título de Efemérides Sergipanas, reunindo-os em dois substanciosos volumes, artigos que, enfim, chegam as páginas de um livro, muitos após oitenta e cinco anos de longa espera. Enfim, enfim. Para conhecê-los, um a um, não é preciso mais que o interessado tenha de procurar nos jornais, sem ter idéia do jornal, nem da data de sua edição. Agora, os artigos estão enfileirados em dois livros, salvos da destruição do papel, aptos a servir de fonte para os mais diversos assuntos dentro da história sergipana. É só consultar o índice dos dois livros.

            Esta a grande e extraordinária vantagem que o livro apresenta ante o jornal. Depois, não ficava bem saber que Epifâneo, mais de quatro décadas de sua morte, permanecia com a sua obra espalhada nos jornais, sem o enclausuramento do livro. O fato doía na mente do pesquisador, porque os artigos, nos jornais, tendem a levar o pesquisador a uma segunda morte, quando o exemplar se estraga ou o local, onde o artigo repousa, sofre danos, muito rotineiro em se cuidando de papel velho, guardado em salas inapropriadas, como sói acontece.

            Ana Maria Fonseca Medina salvou uma parte da obra de Epifâneo com os dois volumes de EFEMÉRIDES SERGIPANAS (vol. I e vol. II), lançados em 28 de maio último, na Biblioteca Pública Ephifâneo Dorea. É um fato digno dos maiores registros, por transportar do jornal para as páginas do livro algo de sua laboriosa pesquisa dada à lume nas mais diversas épocas da sua vida. Epifâneo, agora, não é mais o pesquisador de artigos de jornais, condenado a morrer com os artigos quando o jornal for destruído, como está sempre sendo. Agora, é o autor de dois livros, publicação póstuma onde o fôlego/paciência de Ana Maria Fonseca Medina se mede com a  intensa variedade de conhecimentos de Epifâneo, na preocupação de ir além da caminhada de Armindo Guaraná, que, a seu modo, prosseguiu, no que tange a biografia de tanta gente ilustre, aqui nascida e que entre nós passou, e, ainda, no que se refere a fatos isolados da história sergipana.

            EFEMÉRIDES SERGIPANAS deixa mais alto o nome de Epifâneo, na reunião de muitos de seus trabalhos em forma de livro, mostrando, por outro lado, que, nas pegadas de um grande pesquisador, está sempre outro pesquisador que, com muita tenacidade, não mede esforços para concretizar um sonho, de chegar a grandeza do livro, sonho que, talvez, Epifâneo, não tenha podido realizar, no seu melhor tempo, e que, agora, tantas décadas depois do seu óbito, se transforma em realidade, trazendo a marca de Ana Maria Fonseca Medina, que, em dois livros anteriores, sobre a Ponte do Imperador e sobre a figura de Hermes Fontes, mostra que, Boquim, além de ser fonte para as melhores laranjas da região, é também um celeiro de grandes nomes na arte de escrever.

            EFEMÉRIDES SERGIPANAS marca o bom passo do primeiro semestre do corrente ano em termos de história sergipana, ao lado do excelente LEANDRO RIBEIRO DE SIQUEIRA MACIEL – O PATRIARCA DO SERRA NEGRA E A POLÍTICA OITOCENTISTA EM SERGIPE, de Ibarê Dantas. Mas, este reclama abordagem específica, o que, adiante, tentaremos fazer.          

 

 

 JF/SE Home